Ave Lola Rumo ao Rio Negro – comunidades ribeirinhas.

A Ave Lola espaço de criação é um lugar onde artistas inquietos sonham e trabalham em busca da arte como filosofia de vida. A arte como um dos lugares onde o ser humano se investiga, se surpreende de si mesmo, se questiona e se ensaia enquanto ser social. O teatro tem sido nosso caminho principal, ainda que tenhamos flertado sempre com a música, com as artes visuais, a fotografia e a literatura.

Aqui me detenho para falar sobre nossa viagem a três comunidades ribeirinhas, onde tivemos o privilégio de apresentar o espetáculo “O Malefício da Mariposa” de García Lorca, para pessoas que nunca haviam assistido teatro e, segundo seus depoimentos, não imaginavam que uma trupe de teatro pudesse chegar por ali: Tumbira, Três Unidos (no Rio Negro) e São Francisco do Caribi (no Rio Uatumã).

O projeto que nos levou a essa experiência incrível, se chama “Ave Lola Rumo ao Rio Negro” e ele se realizou graças ao fato de sermos uma equipe que lutou por esse feito ao longo de muito tempo além de termos sido contemplado com o Prêmio de Teatro Myriam Muniz 2014/2015.

Ficamos em média cinco dias em cada uma das comunidades e além do espetáculo, realizamos oficina, bate-papo e ouvimos histórias sobre a Cobra Grande, o Curupira, o Mapinguari e tantos outros personagens misteriosos e fantásticos da Amazônia.

Para nós ficou claro que ter a verdadeira dimensão do que é ser brasileiro, passa por conhecer essa terra repleta de diferenças e igualdades.

A primeira comunidade onde estivemos foi a Comunidade Tumbira pertencente à Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro.

Chegamos lá transportados por uma voadeira, uma lancha leve de alumínio, capaz de navegar em alta velocidade, fazendo jus ao seu nome. Conosco estava a técnica da Fundação Amazonas Sustentável, a adorável senhora Lizandra, que nos apresentou à comunidade e explicou alguns costumes da região. O que mais nos encantou foi o fato de que eles não entram com sapatos em suas casas. Fazia todo o sentido, o chão é o lugar onde, muitas vezes, para aplacar o calor nos deitamos, o lugar onde as crianças brincam e frequentemente comem. As casas tem um chão frasquinho de madeira e depois das 13h, o mais ecológico a se fazer é jogar-se nele para esperar a temperatura voltar aos 32 graus. Isso acontece lá pelas 17h.

Vista essa característica da região, vale ainda dizer que os meses de setembro e outubro são os mais quentes do ano, e que esse ano foi o mais quente dos últimos 20 anos, com uma temperatura que flutuou entre os 32 e 45 graus célsius. Entendemos que todas as nossas atividades deveriam ser entre às 7h da manhã e 12h ou entre às 19h e 22h. Dois fatores principais nos moveram a escolher esses horários, a primeira é que esse é o hábito regional. No meio da tarde não há o que fazer fora de casa. Os ribeirinhos sabem que não é saudável enfrentar o sol nesse horário.

O segundo é que nós, branquelos do sul, não conseguíamos respirar ou raciocinar ou qualquer outra coisa, visto que estávamos no calor úmido de 45 graus. Essa experiência física nos transformou. Impressionou-nos e nos colocou em um lugar de consciência do que é realmente necessário.

Para ilustrar melhor essa passagem, vou contar “uma historieta”. Uma das tardes de temperatura normal, 45 graus aproximadamente, estávamos todos em busca de uma forma de atravessar aquela provação. Uns de nós deitados no chão, outros numa rede balançando com o argumento que a rede fazia um ventinho agradável, outro tomando água o tempo todo para evitar a desidratação e a Regina Bastos desaparecida, caminhando sabe lá Deus onde. Não podíamos ir para o Rio por dois motivos; o sol estava muito alto e ali bem perto de nós morava um jacaré que a comunidade batizara de Rodolfo. A presença do jacaré não nos estimulava a entrar na água. Estávamos lá torrando sem nenhuma esperança além da certeza de que todo dia vira a noite e que toda noite o sol descansa.

Acredita-se que os adultos vão gradualmente perdendo a alegria simples das crianças. O olhar, aquele em que qualquer toco vira uma nave espacial e qualquer galho uma floresta. Nós adultos vamos nos sofisticando e ficando pouco a pouco mais difíceis de agradar no que diz respeito ao prazer e o divertimento.

Pois bem, foi nesse mesmo dia que, como eu dizia antes, a Regina estava sumida e nós todos com nossas capacidades cognitivas já bem reduzidas porque só queríamos resistir e sobreviver até o anoitecer. Eis que chega a Regina, com uma enorme mangueira de água, vai até uma sombra próxima e diz: “Pronto crianças, olha o que a vó achou!!!”.

Visão incrível se deu a partir dali. Todos pularam de suas redes, largaram os seus copos e correram para brincar na água. Criaram jogos, fizeram chuva, imaginaram situações onde um era dono e outros barganhavam seu quinhão de H2O, depois um deles virou dono de um salão de beleza e todos queriam lavar o cabelo. A cada pequena pausa da lavagem, o dono do salão aproveitava para se molhar e isso criou uma gag imperdível. Passaram mais de hora num jogo ininterrupto.

O que posso dizer… a alegria instaurada entre 10 adultos por causa de uma mangueira. A Imaginação livre e solta, sem as repressões do psicologismo ou do racional. O teatro se fazia ali completamente e foi assim que observei e pensei: o que está acontecendo aqui é o que buscamos nos nossos ensaios, a criança de cada um dos atores, uma urgência física, uma relação primordial com o corpo e a energia do corpo e tudo isso estimulando e estimulado, ao mesmo tempo, por uma imaginação livre, sem julgamento, sem pré-conceito. A vida aqui e agora.

Além desta cena me reconectar com as questões primordiais da criação no teatro, também me levou a refletir sobre a recepção dos ribeirinhos ao assistirem nossa peça. A adorável e calma população das comunidades do Tumbira, dos Três Unidos e do Uatumã haviam nos deixado intrigados com relação à facilidade com que navegavam nas nuvens da poesia e da história de Curianito, Nigromântica e Dona Curiana.

Essa observação não quer em nenhuma medida diminuir nem a percepção dos ribeirinhos, nem a eficácia estética do nosso trabalho, mas já apresentamos nosso espetáculo 400 vezes para públicos muito diferentes em grande parte do Brasil, mas dessa vez, lá nas comunidades, o encontro que se fazia entre a obra e um público de fato diferente. Mais harmônico, calmo e suave. Nossa estética parecia natural para eles. Claro que um inseto pode ser assim. Claro que podemos falar com belas rimas, claro que nessa hora ele voa assim e a luz fica assim. Fluía, tudo era fluido.

A linguagem muito transposta, as maquiagens que criam máscaras, os figurinos em branco e preto eram imediatamente aceitos pela audiência e a peça transcorria com pessoas que embarcavam rápido e até o final em nossa aventura. Sem resistir, divertindo-se e, por vezes, fazendo comentários profundos e poéticos sobre o que viam.

No Uatumã, as 140 pessoas que estavam ali, baixo a lua cheia, assistindo o Malefício da Mariposa, vendo teatro pela primeira vez, ao terminar não se mexeram. Aplaudiram e continuaram sentados. Nós esperamos um pouco para entender o que acontecia e um dos senhores da comunidade nos diz em voz forte: “De novo!!!”

Eles queriam ver outra vez a peça. Eu respondi surpresa: “Não dá, já acabou”. Então, houve tréplica: “Então outra!”
Eles queriam continuar no teatro. Acho que essa foi uma das maiores alegrias da minha vida. Eles queriam que a peça continuasse. Eles queriam ficar ali. No tapete voador do teatro.

Enquanto nós, criaturas urbanas ansiosas e afastadas diariamente de nossas almas, presos em um cotidiano duro e sem poesia, não vemos a hora da peça acabar para irmos jantar, não vemos a hora do jantar acabar para irmos à festa, não vemos a hora da festa acabar par irmos dormir e não vemos a hora de acordar para irmos à reunião… aqueles senhores, senhoras e crianças queriam permanecer. Isso é muito ecológico. É delicioso e “presentificante”, intrigante, adorável. É tentador.

Relacionei imediatamente o que havia acontecido conosco naquela tarde da mangueira d’água com esse episódio. A lição que nos davam os ribeirinhos, a natureza, o calor, o tempo que deslizava com paciência.

O dia na Amazônia e todo colorido, tem muitas nuances de luz, de tons, sombras fortes e cores estouradas. O rio de água muito escura. O vermelho da flor iridescente. Nenhum figurino preto e branco poderia ser surpresa, entretanto, ele era possível, crível e fruído. As maquiagens eram possíveis e críveis. A vida corre no presente e o que diz a sábia senhora a Ariane Mnouchkine: “O teatro é a arte do presente”, logo nós nas comunidades, reencontramos parte do sentido do nosso trabalho, do nosso “métier”, reencontramos o presente, ele estava no rio, no calor, na natureza mágica da Amazônia.

No próximo post, o Mateus vai publicar as micro-história inspiradíssimas que ele escreveu durante as viagens nas comunidades Ribeirinhas.
E assim a gente vai caminhando Brasil-Norte adentro.
Curtam as fotos!
Até a próxima.

 

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Essa belezura é a Ailen Roberto. Uma empresária, produtora e criatura humana de grande qualidade. Não coloquei o nome dela no último post por que meu cérebro agora tem um magnífico HD externo, com vontades próprias e ideias brilhantes, que no caso, é a própria Ailen e quando escrevi o post não estava comigo. Grilo falante de primeira qualidade. Mais uma heroína da Aventura Ave Lola Rumo ao Rio Negro!!!!! Brava!!!!!

Ana Rosa Tezza

2 Comentários

  1. Ailén Roberto

    Que coisa mais linda deste mundo!

  2. Ana Rosa, que texto lindo, saído da vivência, do coração…. de amar este fazer teatral e perceber e amar as pessoas, diferentemente, sem julgamento. Só percepçao pura , da vida que corre e que inspira.
    Beijos minha linda, e para toda a trupe também!!!
    E voltem logo que queremos ser enfeitiçados novamente pelas suas produções!!!

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