apresentação

Nuon, espetáculo que aborda os tempos do Khmer Vermelho no Camboja, estreia no dia 29 de março, durante o FTC

A Trupe de Teatro Ave Lola, de Curitiba, estreia em 29 de março o espetáculo Nuon, que traz ao palco a temática dos refugiados de guerra, tendo como pano de fundo o assassinato em massa promovido pelo regime do Khmer Vermelho no Camboja, durante a década de 70. A história, inspirada em fatos vividos há cerca de 40 anos, se mantém atual diante dos conflitos e dificuldades que hoje assolam outros países, como Síria, Afeganistão e Sudão.
“Nós, da Ave Lola, consideramos essencial trazer esse tema para os palcos, a qualquer tempo. Afinal, a história do mundo está marcada por grandes guerras, genocídios e migrações motivadas por tudo isso, a exemplo do que temos visto acontecer com os refugiados sírios. O teatro tem a capacidade de trazer essa reflexão de forma única, com poesia e delicadeza, mas sem minimizar a relevância histórica dos fatos”, conta a diretora da Ave Lola, Ana Rosa Tezza, também autora e diretora do espetáculo.
Nuon acontece em uma única noite, durante uma celebração em que no mundo budista os ancestrais são homenageados. A história mostra personagens que viveram sob o regime cruel do Khmer Vermelho, e que voltam para revisitar sua terra e suas memórias. Em especial, a peça gira em torno da personagem inspirada em Phaly Nuon, cambojana que se dedicou a salvar outras mulheres dos traumas físicos e emocionais gerados pela tortura, fome e outras mazelas dos campos de trabalhos forçados.
O espetáculo estreia nacionalmente durante o Festival de Teatro de Curitiba 2016, cujos ingressos já estão à venda no site www.festivaldecuritiba.com.br. As apresentações acontecem nos dias 29, 30 e 31 de março e 1º de abril, às 20h, e nos dias 2 e 3 de abril, às 18h, na Ave Lola Espaço de Criação (Rua Portugal, 339 – São Francisco). Os ingressos saem a R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).

Sobre o Khmer Vermelho

O regime aconteceu entre 1975 e 1979 e suas práticas são reconhecidas internacionalmente como assassinato em massa. Cerca de 2 milhões de pessoas – 25% da população do Camboja na época – foram executadas. Os principais líderes do regime foram Pol Pot, Nuon Chea, Ieng Sary, Son Sen e Khieu Samphan. Além de mortes, o Khmer Vermelho foi responsável por horrores praticados em campos de trabalhos forçados, como tortura, separação de famílias e muita fome.

a obra

O teatro nos faz navegar por mares inimagináveis

Fazer “Nuon”, uma obra que aborda um tema tão duro como a guerra, em terras longínquas, da qual pouco conhecíamos, foi um gesto de cumplicidade e amor pelo teatro entre a trupe Ave Lola e os seus parceiros. Vale dizer aqui que: “Quem tem amigos tem muito, mas quem tem cúmplices tem tudo”.

Em nosso percurso as dificuldades foram inúmeras, a começar pela escassez do material bibliográfico sobre o Camboja. A maior parte da história e das formas de arte Khmer foram destruídas durante o regime do Khmer Vermelho. Fotos, filmes e livros foram queimados.

Só durante a pesquisa é que descobrimos que a nossa tarefa seria poetizar um lugar e um momento histórico onde toda a poesia havia sido destruída. O mar era revolto e assustador, ainda assim embarcamos rumo ao Camboja. Passamos um ano em busca de um recorte da história da guerra que assolou o país, de forma a não negligenciar os fatos. Não queríamos reproduzir somente a dor e a barbárie na cena. Bem cedo descobrimos que nenhuma expressão artística poderia dar conta do terror vivido pelo Camboja durante o genocídio que o Khmer Vermelho causou. Todos os nossos experimentos nesta direção pareciam diminuir a saga vivida pelos cambojanos na década de 70.

Assim, viramos o leme do nosso barco rumo à um lugar onde pudéssemos ver não o retrato do terror, mas o suspiro de vida que sobrevive em meio a ele. Pequenos momentos de poesia e resistência em tempos de guerra.

Quanto ao acervo que nutriu nossa pesquisa, ele foi aparecendo lentamente e ao final do ano de 2015, por encomenda dos deuses, já tínhamos dois livros de autores cambojanos traduzidos para o português. Tivemos acesso também à inúmeros documentários, em geral, contraditórios quanto a verdade da história política que deu origem aos conflitos no Camboja, mas repletos de depoimentos inspiradores de cambojanos que haviam sobrevivido à guerra.

Outro grande desafio que enfrentamos para realizar esse trabalho, foi encontrar uma forma teatral que criasse um espaço transposto de realidade, sem deixar de lado a sofisticada estética da arte do Camboja. Hoje, há uma lacuna gigante no que concerne as formas de representação artística desse país, pois a transmissão da arte Khmer era feita por meio da tradição oral, quer seja na música, no teatro ou na dança. Os ensinamentos eram feitos por mestres que trabalhavam pessoalmente com seus pupilos e foram precisamente esses mestres e seus alunos as primeiras vítimas do regime do Khmer Vermelho. Junto com toda a classe intelectual, noventa por cento dos artistas cambojanos foram assassinados. Assim, a busca por uma forma de representação própria cambojana como fonte inspiradora para o nosso trabalho, se fez quase impossível. Desde então, o país timidamente tenta reconstruir o retrato de suas manifestações artísticas. Apesar dos esforços, ainda não há muito recuperado, pois ainda enfrentam problemas econômicos oriundos na guerra. Vimo-nos então, obrigados a percorrer um caminho distinto. Nos apoiamos em manifestações artísticas dos países que influenciaram e foram influenciados pela arte Khmer. Logo, direcionamos nossa nau, rumo à Índia, Tailândia e China.

Durante esse percurso, tivemos ainda a sorte de fazer com nossos outros espetáculos uma longa turnê pela Amazônia. Essa viagem foi fundamental para compreendermos algo da vida de um povo que vive num espaço farto, tropical, onde as águas dos rios desenham não só a geografia, mas também os hábitos e os costumes das pessoas que habitam suas margens. Um povo calmo, com um ritmo que pulsa com a natureza.

Foi então, que graças ao trabalho dos atores e de toda equipe artística chegamos a uma forma transposta, e nos aproximamos de algo que chamamos “Nosso Camboja Imaginário”. Buscamos uma reflexão sobre o ser humano, as suas escolhas, e o seu destino trágico. Fizemos um percurso poético e espiritual que não pretende encontrar uma doutrina ou resposta, mas simplesmente fazer lembrar o mistério que é a vida do ser humano na terra, as circunstâncias belas e também as terríveis, que criamos enquanto espécie.

Ana Rosa Tezza

ficha técnica

Atores e atrizes:

Evandro Santiago, como Arun, Kim, Sambath e Diretor do Campo de Refugiados
Helena Tezza, como Bopha, Nuon e Ampeu Hengsaa
Janine de Campos, como Príncipe Norodom Sihanouk, Nuon e Koylan
Marcelo Rodrigues, como Tã e Mestre Viseth
Regina Bastos, como Nuon

Músicos: Breno Monte Serrat e Mateus Ferrari

Criação: Ave Lola Trupe de Teatro

Direção: Ana Rosa Tezza.

Dramaturgia e Texto: Ana Rosa Tezza

Música: Mateus Ferrari

Figurino: Eduardo Giacomini

Cenário: Fernando Marés

Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski

Plástica do Personagem e Máscaras: Maria Adélia

Operador de luz: Rodrigo Ziolkowski

Parceiro de Trajetória: Mozart Machado

Produção: Ailén Roberto

Assistente de Produção: Dara van Waalwijk van Doorn

Cozinha Ave Lola: Laura Tezza

Cozinheiras: Jamilsa Melo e Dara van Waalwijk van Doorn

Costura: Ary e Maria

Cenotécnico: Anderson Purcotes Quinsler

Design do Website: D&C / design gráfico & webdesign

Assessoria de imprensa: LIDE Multimídia

Amigos voluntários: Luisa Covolan e Ernesto Tezza

Design Gráfico: Mateus Ferrari

Registro Fotográfico e Vídeográfico: Larissa Mayra de Lima

Artista visual teatro de sombras: Sandra Hiromoto

Realização: Ave Lola e as Meninas Produções Artísticas LTDA

Exposição “Um retrato do Camboja”: Max Carlesso.

Oficinas que contribuíram para o processo: Jean Jacques Lemêtre (O corpo musical), Virginie Collombet (Iniciação ao Kyogen), Dominique Jambert, Janaína Matter (Iniciação ao método Suzuki), Maria Adélia (Iniciação à manipulação).

informações técnicas

Título: Nuon
Autor: Ana Rosa Tezza
Duração: 85 min
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Tipo de palco: Frontal, preferencialmente com a plateia mais alta que o palco
Tempo de montagem: 8h
Tempo de desmontagem: 8h

proposta de oficinas

Compartilhamento de Criação da Trupe Ave Lola de Teatro

Nos processos de criação da Trupe Ave Lola, os atores elaboram, a partir de improvisações, um repertório de cenas e situações teatrais que servirão de material para a construção de uma narrativa sobre o assunto que queremos abordar. Desta forma, criamos uma dramaturgia de cena que transita entre as propostas de improvisação trazidas pela direção e as modificações decorrentes do caminho percorrido pelos atores na busca de transportá-las para a cena teatral de fato. Para a Trupe Ave Lola, esse percurso de alteração do material proposto pela direção é o que constrói uma dramaturgia que não prioriza o texto e sim descobre-o com aquilo que se revela em cena.

A Ave Lola, ao longo dos últimos cinco anos, adotou uma série de procedimentos teatrais que contribuem para que o ator/atriz atinja um estado de criação fértil, acendendo o seu universo imaginativo. Esses procedimentos incluem jogos dramáticos, jogos de improvisação e exercícios que estimulam o ritmo e a precisão do movimento, levando o ator/atriz a uma maior consciência da presença da música em todo o processo teatral, desde a melodia de um deslocamento, passando pela construção rítmica do gesto, até a musicalidade da fala. Tudo isso com “estado”, sinceridade e coerência interna.

Esta oficina trabalha sob o terreno em que o ator tem em seu corpo, sua principal ferramenta, a possibilidade de interferir diretamente na construção narrativa da obra.

Público-alvo
Pessoas interessadas em teatro, sendo artistas ou não. Maiores de 16 anos.

Número de vagas
30 pessoas

Carga horária
16 horas (podem ser distribuídas da melhor forma para esta instituição)

Necessidades técnicas
Sala ampla, preferencialmente de chão de madeira
Aparelho de som

fotos


 
Termo de Uso: As imagens possuem direitos autorais reservados e sua utilização deve se restringir à divulgação do trabalho da Ave Lola, com o devido crédito ao fotógrafo. Para ter acesso às imagens em alta resolução, entre em contato:

Larissa de Lima – Comunicação Ave Lola
producaoavelola@gmail.com
Fone: (41) 2112-9924 / 98510-6389

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