Quando somos tomados por um desejo, um sonho ou um propósito, quando queremos algo que acreditamos ser fundamental, vital e imprescindível. Quando sentimos que há algo por perto, que pode “re-significar” as nossas vidas, em geral, queremos dividir isso com o maior número de pessoas possíveis, as mais próximas e também as mais distantes. Para compartilhar um desejo, somos capazes de superar inúmeras adversidades. Somo capazes de inventar novas fórmulas avançar e recuar quantas vezes sejam necessárias. Somo capazes de atos heroicos. As verdadeiras gentes de teatro acham maneiras de atravessar rios imensos, florestas incríveis, voar muito longe para mostrar sua obra, por que querem compartilhar.
Assim, em geral, nos comportamos nós, os artistas. Criaturas estranhas que vivem nesse país utópico chamado teatro. Ficamos durante muito tempo planejando uma aventura por países longínquos ou matas espessas. Tudo para que possamos nos encontrar com o desconhecido.
Vale dizer que as viagens são constantes no mundo do teatro, raramente voltamos para casa. Às vezes as viagens são físicas, às vezes não, entretanto, as duas formas são igualmente intensas.
A Ave Lola está orgulhosa e radiante com o fato de ter conquistado a oportunidade de uma turnê incrível pelo Norte do Brasil. Numa viagem como esta entramos em contato intenso com aquilo que o teatro nos dá de melhor: a graça do encontro e das surpresas. A possibilidade de descobrir os mundos distintos que certamente alimentarão nossas próximas obras e nossa vida futura , não importa onde estejamos. A Chance de saber por meio dessas viagens que o mundo é “vasto, vasto mundo” e nele “há muito mais do que pode sonhar nossa vã filosofia”.
Abaixo segue o gracioso diário de viagem que os artistas que fazem a peça “O Malefício da Mariposa” escreveram durante a estada em Assis Brasil no Acre.
Desfrutem!
A Próxima parada será Guajará-Mirim!

Ana Rosa Tezza

 

Às 14h do dia 21 de outubro de 2015, saímos de Rio Branco para Assis Brasil, interior do Acre. A cidade faz parte da única tríplice fronteira da turnê “Brasil Fronteiras do Norte”: Brasil, Peru e Bolívia. Nesse dia conhecemos também o James, um senhor simpático e atencioso motorista da Van que estaria conosco durante toda essa etapa da aventura.

Fomos estrada afora, conhecendo o interior, vendo suas paisagens e nos encantando com a simpatia do povo acreano.

Entre risos, cochilos e paradas, nos deparamos também com uma triste realidade do interior brasileiro, estradas em estado deplorável, com buracos imensos, asfalto muito mal cuidado.

Após cinco horas, chegamos a Assis Brasil, uma cidade pequena, era noite, estávamos cansados e com um pouco de fome. Fomos direto para a pousada que de cara não parecia nada com a imagem que havíamos visto na internet. Fomos recebidos por um senhor que pouco falava, mas muito sorria. Tudo parecia bem, até o momento em que sua esposa chegou, era uma mulher de voz forte e olhar um pouco assustado, que nos comunicou que a água tinha acabado e que o pouco que restava na caixa d’água era para os hospedes que já estavam na pousada.

Confusão na porta, éramos sete pessoas, mas naquele momento parecíamos trinta! Um pouco sonolentos, não sabíamos o que fazer, entramos e saímos algumas vezes, o senhor que nos recebeu continuava a nos mostrar os quartos enquanto a senhora de voz forte, bradava no corredor:

– Não dá, não tem água!

Sabendo que Assis Brasil é uma cidade pequena e dado o avançado da hora (porque após o pôr do sol, tudo se aquieta), pedimos mais uma vez para a senhora, que, por favor, nos deixasse ficar. Ela a essa altura já sorria e dizia, ainda com a voz forte: – Tudo bem maninhos, tudo bem!

Acomodamo-nos em quartos simples, porém aconchegantes e em seguida partimos em busca de comida. Não encontramos lugar para jantar na cidade, resolvemos então jantar em Iñapari, a cidade de fronteira do Peru. Assim que passamos as terras peruanas, percebemos as diferenças entre as duas culturas.

Surpresos com os charmosos “moto-triciclo-taxis” peruanos, o passeio foi inevitável, eu (Tatiana), Ailén e Janine aproveitamos para conhecer melhor a cidade e durante o passeio batizamos taxis de tuc-tuc, em alusão ao famoso transporte indiano. Em seguida jantamos uma comida maravilhosa e voltamos as  terras brasileiras.

No dia seguinte, tínhamos que montar o cenário para a apresentação d’ O Malefício da Mariposa. Logo cedo fomos conhecer a escola onde apresentaríamos, era muito colorida e bem cuidada pela diretora que nos recebeu com simpatia. Enquanto montávamos, crianças com olhares atentos nos acompanhavam. Mateus, nosso sonoplasta, aproveitou a oportunidade para matar a saudade da infância e foi brincar de bola de gude, entretanto, logo de início se deu conta que não tinha mais o mesmo desempenho de quando era criança.

Começamos a apresentação às 14 horas. Foi emocionante ver as carinhas atentas e os olhares maravilhados com toda a poesia de Lorca. Foi uma linda apresentação com gargalhadas inesquecíveis.

Durante a desmontagem, olhares curiosos ainda nos cercavam, perguntando sobre os bonecos e tentando adivinhar quais dos atores fizeram os personagens, foi um jogo divertido. Um pouco antes de sairmos da escola, veio em nossa direção, uma criança, a Júlia, e nos perguntou um pouco triste: – Por que vocês não voltam logo? Explicamos ainda que iríamos apresentar mais uma vez em Assis Brasil, em outra escola. Ao descobrir que era a escola onde estudava sua irmã, ela sorriu deflagrando a alegria de quem descobre um cúmplice ao testemunhar um momento bom, mas momento efêmero. Elas veriam em dois tempos a mesma obra e poderiam falar disso mais tarde.

Antes de falar da segunda apresentação, fica aqui um parênteses para todos os colegas de teatro: quando forem montar um cenário em local com muitas crianças, cuidado com as ferramentas e principalmente com a fita hellerman, pois alguma coisa fofa daquelas pode inventar de prender o dedinho do coleguinha.

Acordamos cedo no dia seguinte para apresentar na segunda escola. Os alunos eram um pouco maiores. Certamente a apresentação teria um sabor especial para a irmã da Júlia. Todos muito atentos, ao final nos perguntaram sobre os bonecos, como foram construídos e como eles poderiam fazer também. Respondemos e a diretora da escola garantiu que a professora de artes teria bastante trabalho pela frente.

No mesmo dia, à tarde, fizemos uma oficina com os alunos mais velhos. Em princípio, muito curiosos para entender, como fazer esse tal teatro. Conforme iam fazendo os exercícios propostos, a imaginação foi tomando conta e lá estavam cowboys, monges, o noivo, a noiva, o morto, o casamento, o velório, a praia… e a magia do teatro acontecendo, simples, do tamaninho deles. Quando tudo acabou ficou o gostinho de “quero mais”.  “Quero mais uma apresentação na praça, quero mais uma hora de oficina, quero mais uma vez essa história, quero mais que vocês voltem e logo”. Depois da despedida de todos os sorrisos acreanos salvos em nossos corações, partimos para mais uma parte dessa  linda aventura.

Tatiana Dias e Val Salles, Janine de Campos, Mateus Ferrari, Ailén Roberto, Raul Freitas.

 

Um Comentário

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *